segunda-feira, 24 de março de 2014

HORACIO. Uma reflexão sobre o humano



  
Direção Geral e Argumento:
Carlos Gradim
Dramaturgia:
Edmundo de Novaes Gomes
Elenco:
Geraldo Peninha, Leonardo Fernandes
Ator convidado:
Sávio Moli
Criação de Imagens: Clarissa Campolina
Designer de Luz: Telma Fernandes
Trilha sonora: Dr. Morris
Produção Musical: João Antunes
Voz da Canção: Regina Souza
Cenografia e Figurinos: Niura Bellavinha
Preparação Vocal: Rose Gonçalves
Preparação Corporal: Suely Machado
Assistente de Direção: Leandro Daniel Colombo
Assistente de Produção: José Luís Silveira
Cenotécnico: Joaquim Pereira
Direção de Cena e Operação de som: Tacito Cordeiro
Operação de Luz: Edimar Pinto
Costureira: Maria Socorro Teles
Fotografia: AC JR e Guto Muniz
Assessoria de Imprensa: Jozane Faleiro
Assessoria Jurídica: Drummond & Neumayr
Gestores Financeiros: Luiz Guimarães e Clac Cultural (Cris Lima)


É curioso observar a ficha técnica deste espetáculo... Faz pensar na enormidade de uma equipe necessária para alcançar um bom trabalho. Desde as escolhas de texto e de desenho de cena até o modo como se anuncia a chegada de um novo trabalho de teatro na sociedade, nas cidades, na vida de quem vive o teatro, tudo são  elementos de uma rede que compõe e dá ordem a um resultado respeitável e consistente. Este é o caso de Horácio.

“O percurso dramatúrgico de HORACIO surge de dois textos diferentes. O primeiro, a novela O HOMEM COMUM, de Philip Roth. O segundo, a prosa poética HORACIO, de João Gabriel Furbino, ainda inédita em livro. Em comum os dois textos possuem um desejo: falar da vida naquilo que ela pode ter de mais decisivo. Assim, HORACIO é uma alegoria na qual as metáforas se apresentam a partir daquilo que eu, que você, que cada um de nós pode (ou não!) viver.”
Edmundo Novaes.

O que tem a vida de decisivo, que o teatro pode mostrar, desvendar, revelar, repetir... Na conversa de um homem consigo mesmo, durante seu velório, diante da morte e das pessoas que são atraídas por ela, podemos encontrar uma vida estarrecedora e duvidosa. No espaço cênico que não exprime um lugar, talvez, exprima um não-lugar, tomamos contato com a terrível certeza que podemos ser esquecidos, abandonados, relegados ao passado e à memória frágil de acontecimentos que não foram, afinal tão marcantes assim.

O espaço cênico de HORACIO é um labirinto de luz e transparências. Suas paredes-biombos escondem e revelam humanos, inumanos e pós-humanos. Homens que foram vivendo uma vida na medida em que ela a eles foi se dando. Espíritos ainda insipientes das coisas da vida, que se foram forjando nas memórias, pois os acontecimentos só adquiriram significado muito tempo depois de acontecidos. E homens cheios de bengalas e muletas, tecnológicas como uma caneta e um relógio, que marca uma hora inacreditável de ir-se embora, ou fantasmagóricas, que nunca são visíveis, mas muito presentes.

São paredes transparentes que apontam a consciência e a dúvida que somos e vivemos, diariamente, como um cotidiano anti-poético. Um cotidiano cruel e avassalador que nos compromete com nossas próprias mentiras e maldades. Que nos amolece com amores inconfessáveis que nem vivemos plenamente, por incompetência pura. A luz que as atravessa faz brilhar as presenças, faz com que as sombras surjam e desapareçam, como em nosso pensamento. A sutileza da entrada das cores e dos tons pastéis, ilumina uma fantasia teatral de um pós-humano desgastado, cansado e vivo. Ou quase vivo. O quase vivo é que nos angustia, pois a presença não consegue mais realizar nada, não existe de fato, é só memória do fazer.

Os figurinos não aumentam nem diferenciam aquela alma. São realistas, cotidianos e pouco informam a fantasmagoria. No desejo de enxergar aquelas almas, preferiria ter visto a irrealidade mais presente, roupas mais contundentes, que não se restringissem a vestir os atores. Claro, que não sendo eu a fazer o espetáculo, posso apenas dizer de uma sensação de fruidora: não fizeram diferença. Os objetos, cumprem papel de praticáveis, não interferem poeticamente, e só contribuem para uma movimentação ou outra.

As atuações é que fazem explodir o espaço e mudar o tempo. Os atores se colocam, são intensos e verticais. Como diz Peninha no programa: “o texto é um desafio por fugir dos padrões comuns e a direção nos incentiva o tempo todo a descobrir o prazer que existe no risco. Surpreendente e estimulante! Dois adjetivos que todo ator agradece ao encontrar no trabalho”. Os atores transparecem gostar do que fazem, exploram suas frases e palavras, meio soltas, meio arquetípicas, meio normais, meio engraçadas. Ocupam os espaços vazios do tablado aparente com um corpo vivo e confuso, como uma alma penada e desconectada. Livre para ser um fantasma.

HORACIO de fato é um trabalho cheio de qualidades teatrais. Palavras intensas, jogos atraentes, luzes e cores que constroem presenças, que ressignificam a vida, que trazem um masculino pós-moderno: confuso, adocicado, delicado, crível. A realização plástica de HORACIO é contundente na atuação, no espaço e na luz. A teatralidade flui. Bom ver teatro bom.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ELLES: mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou




O século XX foi profícuo em experimentalismos e legou ao século seguinte uma densidade tecnológica desconhecida até então. A discussão da arte moderna trouxe uma série  de reflexões importantes que reorganizaram tanto as relações entre artistas, quanto a relação da arte com a sociedade. A expressão não racionalizada de pensamentos, como no Expressionismo; a abstração como projeto estético, como no Abstracionismo; o cinema; a moda; a imagem, o visual e a construção do olhar, a intencionalidade da visão. Diante de todas estes acontecimentos a arte se colocou como um percurso político, ideológico e econômico, para além de sua atividade estimuladora da sensibilidade. E as mulheres cumpriram papel importante nessa reordenação de relações.

Por um ado, as mulheres contribuíram com o pensamento ampliando as possibilidades de percepção da imagem, sob tonalidades de um ser humano que se modifica a cada quinze dias, um ser que obteve somente nesta época a respeitabilidade pela noção biológica e psicológica de igualdade. As mulheres do século XX foram responsáveis por conquistas fundamentais para a percepção política da arte, por sua contribuição ao debate sobre as diferenças e as igualdades entre os gêneros. O Feminismo foi um movimento guerrilheiro que afetou profundamente toda a estrutura social, e colocou novos parâmetros artísticos, ideológicos e humanos em voga.

Jacques Aumont (A Imagem, Papirus, 1993) chama atenção para os estudos sobre a diferença sexual na produção e fruição de imagens, e sua reflexão parece se materializar na exposição ELLES, de maneira poética e estimulante. Para Aumont, os estudos feministas insistiram na “assimetria entre personagens masculinos dotados do poder de olhar e personagens femininas feitas para serem olhadas”, gerando um fetiche da mulher como “objeto para ser olhado” e o do homem como “portador do poder de olhar”. Esta oposição alimentou a discussão e o reposicionamento de mulheres de várias gerações, e deu ensejo a uma produção complexa de manifestações artísticas de cunho desafiador na passagem entre o século XX e o século XXI. A exposição ELLES, dá conta de um mundo inteiro que esteve amalgamado com a produção artística mundial, mas que se individualizou como revisão de costumes, de nomenclatura e de percepções sobre a mulher.

Seria insano, penso, tentar dialogar com a exposição como um todo aqui neste espaço, por sua grandiosidade e intensidade. Quem não viu vá ver. Mas posso trazer à tona um naco de luminosidade dentre os focos que se misturam em ELLES, repetindo uma frase de Louise Bourgeois. Esta artista nasceu francesa e radicou-se nos EUA, conheceu a fama tardiamente e morreu em 2010, aos 98 anos de idade. Seu trabalho se concentrou em esculturas, no mais amplo significado desta arte. Materiais como madeira, aço, pedra, borracha, papel e tecido foram seus parceiros. Também produziu desenhos e gravuras.

Em ELLES, encontramos uma composição de tinta e linha sobre papel, de extrema delicadeza e feminilidade, sem título. Branco, vermelho e azul desenham uma forma abstrata que remete à ocupação do espaço pela intensidade nervosa. A linha costura o papel em espiral ao lado da tinta, que escorre vermelha no centro da lâmina. Louise escreve sobre as formas espirais desta composição:

“Começar pelo lado externo é o medo de perder o controle; as voltas são um aperto, um recuo, uma compactação até o ponto de desaparecimento. Começar pelo centro é afirmação, o movimento para fora é representação de dar, de abandonar o controle; de confiança, de energia positiva, a própria vida.” (Destruição do Pai, Reconstrução do Pai, Cosac & Naif, 2000)

Assim como os espirais delicados de Bourgeois, as mulheres promoveram na arte moderna e na passagem para a arte contemporânea um movimento de duas vias: de dentro para fora, revigoraram o pensamento social com valores femininos de afeto e intensidade; de fora para dentro, empurraram os limites ideológicos da arte, forçando a revisão de suas estruturas heteronormativas, brancas, europeias e ocidentais. Ainda não foi o suficiente para a transformação real, mas é consistente para que esta não possa mais ser evitada.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Dama do Mar



Direção, cenário e conceito de luz: Robert Wilson
Co-direção: Giuseppe Frigeni
Texto: Susan Sontag baseado na peça de Henrik Ibsen
Baseado na peça de Henrik Ibsen – Tradução: Fábio Fonseca de Melo
Revisão e adaptação: Leila Guenther
Música: Michael Galasso
Figurinos: Giorgio Aramani
Desenho de luz: A.J. Weissbard
Assistência de luz: Fiammetta Baldiserri
Desenho de som: Peter Cerone
Visagismo: Luc Verschueren
Assistência de direção: André Guerreiro Lopes

Elenco
Lígia Cortez
Ellida Wangel
Ondina Clais Castilho
Hélio Cícero
Luiz Damasceno
Felipe Sacon
Bete Coelho – participação especial – Alternância de papéis

Projeto
Change Peforming Arts, Milão, Itália
Diretores artísticos: Franco Laera e Elisabetta di Mambro
Coordenadora de Produção: Virginia Forlani

Realização: SESC – Serviço Social do Comércio / SP
Presidente Conselho Regional: Abram Szajman
Diretor do Departamento Regional: Danilo dos Santos Miranda

(Informações do Programa Impresso da Apresentação no SESC- Pinheiros)


“Desejo e coragem de lutar pela inovação” (Giorgio Armani)

Ver teatro não tem sido tarefa fácil na nossa atualidade. Um sem número de experiências arrogantes tem se misturado aos projetos de estudo e de mergulho nas nuances de uma forma tão múltipla e encantadora. Quando se presencia uma busca intensa e, por assim, dizer, invasiva de nossa habilidade de nos deixar afetar, como “A Dama do do Mar” de Bob Wilson, tudo concorre para um momento de renovação, de vivificação, de doce angústia pelo espetáculo da vida.

Pressupondo que no teatro não há “nenhuma separação entre as várias expressões artísticas”, que “o que é visual e o que é sonoro são aspectos inseparáveis”, Bob Wilson compartilha com atores, que se permitem criar novos níveis de realidade, um mundo artificial, capaz de nos apresentar verdades profundas. Uma mulher-foca, que pode ser apenas uma mulher enfadada, que pode ser uma mulher reprimida, que pode ser uma mulher louca, se mostra nas suas entranhas para nós, os olhares estupefatos. Um tempo-ritmo que não se rende à velocidade dos cotidianos pós-modernos, que insiste em fazer revisar todos os hábitos de envolvimento e de leitura de uma obra teatral. Um espaço lúdico e surreal, deliciosamente simples e limpo, mas que transpõe a vida para múltiplos patamares de percepção. Ah... quanto é inspirador poder abandonar a verdade e criar uma realidade. E quanto é nutritivo para a imaginação e para a inteligência retornar desta aventura para um mundo fragmentado e confuso como o nosso atual.

A plasticidade da cena pode nos inspirar a recompor a plasticidade da vida, porque nos oferece as possibilidades de criação de sujeitos, a partir de nós mesmos, a partir de nos espelharmos no diferente. Um teatro poema que não está a serviço de uma realidade, porque consegue estabelecer novas realidades, que não se submete à vaidade de atores ou de grupos de atores, porque está voltado para uma percepção compartilhada da violência da nossa imaginação.  Um teatro para desorientar nossas capacidades intelectuais e irritar nossas concepções pequeno-burguesas de sucesso, de crítica, de qualidade.

Um mosaico belo e delicado de sons, cores e movimentos delineados pela busca da precisão. Seres pós-humanos dispostos a se relacionar com humanos que fingem não estar presentes, que acatam os longos silêncios, e que, talvez,  não estejam confortáveis nas suas cadeiras por tanto tempo, olhando para um nada, uma constante dúvida sobre a coerência e sobre o delírio.

Me veio uma necessidade de voltar a este espetáculo, verdadeiramente um espetáculo, por ter medo intelectual de me contaminar pela ingenuidade capitalista do teatro feito para si mesmo. Do teatro feito para forçar a capitalização e não a experiência. Por precisar me lembrar a mim mesma que, antes de tudo, teatro tem um papel social muito importante, mais importante que a continuidade de um grupo, ou a vivencia individual de um processo de trabalho... Teatro é uma expressão de alteridade. Sua perspectiva é, para mim e também para outros embora não para todos, um contexto de aprendizado sobre o outro. Uma relação para a redescoberta da vida.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Apichatpong Weerasethakul

 

Exibição de Videoarte
FLUXUS 2013

Apichatpong Weerasethakul, apelidado por si mesmo Joe, é um realizador do cinema independente tailandês. Licenciado em Arquitetura pela Universidade de Khon Kaen (Tailândia) e Mestre em Belas Artes – Cinema, pelo Art Institute (Chicago - EUA). Nascido em 1970 e filho de médicos, tornou-se uma figura central no cinema contemporâneo desde 1994, quando iniciou seu trabalho como videoartista e criador de instalações, estas já expostas em museus e centros de arte do mundo inteiro.

A exposição “Apichatpong Weerasethakul” é, na verdade uma coletânea de oito filmes de Joe: sete curtas e um longa. Os sete curtas foram realizados entre 2006 e 2012, e o longa, “Hotel Mekong”, é de 2012. Foi realizada em Belo Horizonte/MG na Galeria Oi Futuro, com curadoria de Francesca Azzi (brasileira, diretora da Zeta Filmes). A mostra do trabalho de Weerasethakul faz parte do projeto “Fluxus”, coordenado pela curadora.

O “Fluxus” - Festival Internacional de Cinema na Internet, surgiu em 2000, como “Brasil Digital”, antes de existir o You Tube e o Google. O projeto buscou criar novos espaços de exibição para o filme curto brasileiro, e em 2003 se tornou internacional.

Compartilhar as imagens de Joe W. é como adentrar um mundo reinventado. O cineasta complementa a realidade documental, na qual baseia seus filmes, com uma visão onírica e abstrativa de seus elementos, objetos e participantes. Com uma narrativa não-linear, Joe promove intensas sensações e associações mentais e afetivas, que podem desencadear reflexões políticas, pessoais e humanistas de grande alcance. Sua força parece estar num olhar extremamente humano sobre os homens e mulheres que vivem erraticamente sobre este planeta tresloucado. O inumano de cada uma das personas que seus filmes enfocam, e dos espaços que são tratados como ambientes vivos e significativos, transpõe o mistério da vida para a tela bidimensional, codifica a passagem de estados de espírito em imagens  inusitadas e líricas.

Num tempo de excesso de imagens, de filmes em profusão, de sentimentalidades amassadas pelo consumismo, os filmes de Joe W. podem despertar um luminosidade interior. Podem injetar fantasia e amor em nossas cabeças cansadas e repletas de pensamentos e decisões. O cinema de Joe W. poderia, penso, ser dito supra-realista, porque não economiza delírios possíveis para nosso mundo atual, e, ao mesmo tempo, imanta a realidade de vários níveis de percepção. É doce e bruto, é feminino e agressivo, é grandioso e simples.

Joe Weerasethakul é um artista de seu tempo, disposto a ver e fazer a poesia do cotidiano, e com competência de mestre para instaurar um clima criativo naqueles que se dispuserem a mergulhar no tempo, ao invés de serem dominados por ele.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Vazio é o que não falta, Miranda




Direção e dramaturgia: Diogo Liberano
Assistência de Direção: Thaís Barros
Elenco: Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello
Direção Musical: Philippe Baptiste
Cenário: Rafael Medeiros
Figurinos e Caracterização: Adassa Martins e Natássia Vello
Iluminação: Diogo Liberano e Flávia Naves
Preparação Vocal: Verônica Machado
Direção de Produção: Caroline Helena e Diogo Liberano
Registro Audiovisual e fotográfico: Carolina Calcavecchia e Thaís Grechi
Correalização: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


Quatro atrizes e um diretor tentam encenar Esperando Godot de Samuel Beckett, sem sucesso”.

Como é a teatralidade na contemporaneidade? Se pensarmos no conceito de teatralidade podemos nos questionar em conjunto com Patrice Pavis (SP: Perspectiva, 1999), quando nos diz que:

            “é preciso busca-la no nível dos temas e conteúdos descritos no texto (espaços exteriores,      visualizações das personagens);
            é preciso, ao contrário, buscar a teatralidade na forma de expressão, na maneira pela qual o texto fala do mundo exterior e do qual mostra (iconiza) o que ele evoca pelo texto e pela cena?”

Podemos pensar que convivemos numa época saturada, seja de estímulos seja de informações, que amplifica o vazio. Ou, noutras palavras, numa época plena de intensidades mentais e afetivas, que se organiza no caos. Numa época em que as pessoas fazem autodescrições mais que análises, reivindicam a autoria de suas histórias no mundo, buscam demonstrar  sua ideologia na sua aparência e, guardadas as devidas proporções desta possibilidade, vivem absolutamente solitários em seus mundos artificiais e eletrônicos.

Numa tal época, tanto os temas e conteúdos expressos nos textos escritos, quanto os textos corporais, nos ícones que eles evocam e na cena como exprimível do mundo, estão as teatralidades. Estão as possibilidades de manifestação do ser no mundo, estão os vazios que proporcionam as trocas estéticas e a construção de sentidos.

Em “Vazio é o que não falta, Miranda”, passamos minutos em presença de seres super-humanos, que se expõe numa tentativa de construir atmosferas. Mais que contar uma história, que seria plena de vazios por sua temática da solidão e do indivíduo em sua elaboração de razões para ser e estar, “Vazio” nos coloca em pleno confronto com a “aventura da conservação do si mesmo” (Sloterdijk, 2001). Somos impactados por circunstâncias de interpelação direta, por desestruturações de expectativas comuns ao teatro dramático. Vivemos um dos processos do pós-dramático: “ trata-se aqui de um teatro especialmente arriscado, porque rompe com muitas convenções. Os textos não correspondem às expectativas com as quais as pessoas costumam encarar textos dramáticos. Muitas vezes é difícil até mesmo descobrir um sentido, um significado coerente da representação. As imagens não são ilustrações de uma fábula. (...). Este trabalho teatral é essencialmente experimental, persistindo na busca de novas combinações ou junções de modos de trabalho” (Lehman, Cosac Y Naif, 2007).

As atrizes se doam para uma composição em processo, desenvolvendo mais um projeto que um roteiro propriamente dito. Ao que parece este projeto tem um começo, algumas chaves de mudança de atmosfera e um fim. Mas tudo pode ser rearranjado, segundo indicações de um diretor-personagem, que se imiscui todo o tempo na presentação das imagens e ideias. Cinco personas ficcionais se debatem contra uma plateia indecisa... o que esperar de toda aquela mistura de atitudes, discussões e ações cênicas? Pequenos momentos de percepção lúcida de que somos fragmentos e fragmentados; raros momentos de prazer intenso por não sermos aqueles seres humanos desumanizados. Mas, neste caso para mim mesma, também intensos momentos de percepção criativa de como fazer a cena ao vivo para as pessoas que somos hoje, com várias ilusões, truques e mentiras, como o mais teatral dos teatros!

Divertido, controverso, poético, intrigante, provocador... estes adjetivos me ocorrem para nomear a experiência de compartilhar o “Vazio”, que de fato “não falta, Miranda”.