segunda-feira, 19 de maio de 2014

um pequeno lapso de razão




Texto, dramaturgia, cenário, direção e atuação:
Alexandre Cioletti e Rômulo Braga
Belo Horizonte / MG 

Provocação:
Ton Guimarães
Cenotécnico:
Artes Cênicas Produções
Vídeo-cenografia e Trilha Sonora:
Liga lingha
Ator do Vídeo:
Luã Romeu
Cinematógrafo:
Lucas Barbi

Iluminação:
Marina Arthuzzi
Figurino:
Laura Ricciarddi
Foto:
Ana Ricciarddi
Programação Visual:
Márcio Miranda e Samuel Araujo
Assessoria de Imprensa:
Astronauta Comunicação – Adilson Marcelino e Lucas Ávila
Produção Executiva:
Insight Comunicação e Cultura
Produção e Realização:
Capote Companhia




Mergulhados em nossas próprias intuições, deixamos para trás, ou melhor, atropelamos todas as regras, infringimos todas as leis, ignoramos todas as cartilhas, teorias e ensinamentos e criamos um ‘jeito novo’ de fazer teatro, um jeito ‘nós mesmos’. Pretencioso? Humildemente afirmamos que não é. É apenas a verdade.”
Alexandre Cioletti e Rômulo Braga.


Um dos alimentos mais interessantes do teatro é a coragem do ator de se aventurar, de romper barreiras, de ignorar as formas consagradas e que garantem boa aceitação por parte de público e crítica. A aventura pode ser desencadeada no teatro pelo encenador, pelo produtor, por propostas coletivas, mas só consegue de fato se realizar quando o ator a abraça e se joga nela.

Um pequeno lapso de razão reinventa algumas coisas, repete outras e abre espaço para nós, espectadores, para olhar a cena do ponto de vista da razão. Digo isto pensando nas palavras dos atores, acima transcritas. O “jeito novo de nós mesmos” traz elementos tradicionais do teatro como drama, mas possibilitou que dois dos melhores atores da geração mais jovem de Belo Horizonte se mostrassem nas suas íntimas percepções do que possa ser este teatro.

Em cena, mãe e filho descortinam memórias de solidão, de inércia, de insatisfação, marcadas por uma necessidade de deixar a vida passar... de não fazer esforço pela vida, que afinal, naquele tempo-espaço, não se mostra atraente, e é quase invisível. A extrema pobreza e a ausência de quase tudo, coloca as duas vidas na errância, na impossibilidade do futuro, fazendo do presente a única perspectiva. Aquele é um menino que não se torna homem, aquela é uma mãe que se recolheu ao nada, que talvez esteja realmente morta, aquela materialidade mínima alimenta a ignorância do mundo, que aquele jovem nem sabe que é a sua vida.

O drama é uma cena que tem sido estudada por vários autores, mas que encontrou em Peter Szondi (Cosac Naify, 2011) um porta-voz confiável e lúcido para suas questões. Este autor chama atenção para o fato de que esta forma se concentra na reprodução das relações inter-humanas, que o diálogo traduz a essência de sua composição, e que a mediação que ele exercita é do individualismo da forma, da existência de si em si mesmo, sem parceiros nem concorrentes. O drama se absolutiza. Há uma relação com a modernidade na produção do drama. Anne Cauquelin (Martins Fontes, 2005) sugere que a modernidade se caracteriza pelo transitório, pelo fugidio e pelo contingente. Na teoria de Peter Szondi, o drama não é algo que se encontra em qualquer tempo e lugar, contudo, sua esfera de existência é o “estar entre”, o exercício da liberdade e simultaneamente do compromisso, da vontade e da decisão. As relações entre drama e modernidade emergem deste confronto entre o que é a situação e o como está o indivíduo nela, sua possibilidade de mudar e reverter, manter e continuar, por decisão própria.

O drama construído por Cioletti e Braga, a partir de “suas intuições”, traz marcas de um mundo pós-moderno, mas não se desvincula da modernidade do teatro. O diálogo é o princípio básico da experimentação dos atores, e gira em torno da definição da personalidade das personagens em cena. Da modernidade escolhe a assunção do fugidio, que deixa marcas vazias, que nem precisam ser conservadas porque não adquirem nenhum significado para o depois. Papéis, imagens, objetos do cotidiano, em quantidade mínima, são as materialidades que fundem o grotesco da vida com o sublime do diálogo dramático, envolvido por delicadas vozes suaves, que tornam aquelas relações femininas e amorosas. Os atores se apequenam e se tornam delicados para entrar no drama da falta de amor de uma mãe por um filho, talvez indesejado, que talvez tenha chegado numa vida que já lhe era imprópria. O drama da vida vazia transparece no vazio que os atores constroem em cena. E não foge da regra dramática.

Muitas são as repetições, que em si não tiram o mérito da experimentação a que se propõem aqueles atores. A pobreza estereotipada, a falta de crueldade da personagem infante, a ausência de raiva naqueles seres etéreos demais. Mesmo com todas estas repetições clichês do drama moderno, os atores nos emocionam várias vezes. Sua entrega cria uma atmosfera de teatralidade que nos envolve. O ritmo ainda titubeante, no dia em que pude vê-los em cena, dá a dimensão de seu mergulho numa criação cheia de incertezas. E o mergulho mostra o terrível drama da vida fragmentada e desequilibrada do mundo pós-moderno.

 Um pequeno lapso de razão tem várias possibilidades ainda em germe. Pode ser um grande drama pós-moderno (que me permitam esta licença ainda poética), tem intensidade e desejo, mas ainda está tímido diante de suas próprias qualidades.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

PR AZ ER



Espetáculo da Cia. Lunera (BH/MG)

Concepção e Dramaturgia: Cia. Luna Lunera
Atuação e codireção: Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves
Codireção: Zé Walter Albinati
Orientação Dramatúrgica: Jô Bilac
Preparação Corporal: Mário Nascimento
Residência Artística: Roberta Carrieri – Odin Teatret
Pesquisa em Artes Digitais: Trem Chic
Concepção Cenográfica: Ed Andrade
Figurino: Marney Heitmann
Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho
Produção Executiva: Talita Braga


A Cia. Luna Lunera foi criada em 2001. (...). Sediada em Belo Horizonte (MG), a Luna Lunera tem realizado inúmeras ações de troca de experiências e democratização do acesso à arte, através de cursos, oficinas, ensaios abertos, bate-papos após os espetáculos e projetos de circulação por cidades fora dos circuitos já estabelecidos. Exercita interlocução com outros grupos brasileiros e do exterior, sendo membro do Teatropeia, coletivo de discussão e criação teatral situado no México.” (Programa do Espetáculo)

O projeto de teatro da Cia. Luna Lunera tem como perspectiva a criação compartilhada. Segundo o texto do programa de PR AZ ER, o diálogo entre criadores, participantes da Companhia ou convidados para cada processo, ou ainda observadores mais descomprometidos e eventuais contudo presentes, tem o poder e o papel de modificar, trazer novas referências, alterar o olhar e o caminho da criação. Sem dúvida, uma opção difícil, pois o fazer e o estar em grupo são, em si mesmos, o desafio de escutar e calar, constante e continuamente. E a criação compartilhada traz consigo, ainda, a responsabilidade da satisfação, por que não dizer do prazer, de cada indivíduo envolvido, que se faz e refaz na troca de prazeres com os parceiros. Delicado processo de aprendizado do respeito mútuo e da flexibilidade de pensamento.

Prazer.... Para Aristóteles: “o ato de um hábito conforme à natureza”. Hábito como “disposição constante”. Para Nietzsche: “sensação de maior potencia”. Para Schopenhauer: “a cessação da dor, conhecido ou sentido apenas através da lembrança do sofrimento ou da privação passada”. Ufa... Interessante lembrar de todas estas constatações se revelando no decorrer do encontro espetacular entre aquelas pessoas inventadas que se trancam em casa e olham o mundo pela janela.

Homens que trazem dores de amor. Homens que trazem uma sensibilidade doce e confusa. Homens que se realizam com pequenos gestos do cotidiano, como cozinhar, manejar uma torneira quebrada, observar o próprio cachorro. Personagens ambíguos na sua inumanidade, na sua infância emotiva, na incerteza dura de ver ou viver o amor, e o prazer. Que, conforme suas naturezas, não deixam de agir dentro de seus hábitos, arraigados e tormentosos. Humanos, que se desequilibram e se reequilibram em função da sua busca individual por algum fragmento de não-dor.

Uma mulher que desliza. Alimenta as fantasias sensuais de si mesma e de todos os homens à sua volta, sem toca-los, sem realiza-las, sem destruí-las. Que insiste nas relações, que não abre mão de tentar, que assume o papel de contemporizar, que guarda seus conflitos dentro de seus saltos altos vermelhos.

Os personagens são desenhados, são suaves, por vezes se parecem tanto com pessoas comuns, que até parece que não é teatro. Os atores mostram tal intimidade com sua persona ficcional que, às vezes, é um pouco assustador vê-los se revelando... Uma sensação de cuidado com aqueles pequenos seres meio desumanos, mas uma sensação agradável de saber que nada pode atingi-los, porque estão protegidos pelo palco. E nós escondidos na plateia. Todos bem guardados por Dioniso, que nos assiste nas nossas angústias e prazeres.

O espaço cênico, grandioso e delicado, nos situa num mundo pequeno e fragmentado. Somos envolvidos por recordações e intensidades, que trazem a juventude, trazem o começo e o fim da vida: poucos elementos para atender a todas as necessidades. E a água sempre presente. Chove fora, pinga dentro, lava e inunda, como os sentimentos de dor e prazer fazem, de modo avassalador  e sem demoras. Poético espaço e poético uso dele. Sua luminosidade é difusa, leve, intimista, como a condensar as sombras que cada um arrasta atrás de si... A plasticidade do espaço cênico completa e retoca cada gesto, cada atitude, cada palavra dos atores. Um casamento: onde não há arestas, elas se revelam e se resolvem na sua própria existência, lembrando que a vida é sonho, não é perfeição cartesiana.

O figurino é inteligente pra caramba! Veste e desveste as personalidades e a ficcionalidade de cada personagem. Plausível e contemporâneo, traz à tona particularidades e fundamentos daquelas criaturas; a teatralidade fica por conta do uso que cada ator faz dele. Tem beleza e tem ternura, tem surpresa e tem elegância. Tem ficção e tem não-ficção. Outro casamento: o que é bom desfila, o que é estranho, se esconde sem desaparecer.

A dramaturgia se baseia na conjugação de monólogos em presença dos outros. Todos parecem falar somente para se ouvir, muitas vezes interrompendo um fluxo de pensamento e de emotividade do outro. É conveniente e belo ver as palavras se embolando, se confundindo, “des-contando”  uma história sem pé nem cabeça, que se revela familiar de vez em quando. É comovente ser tratada como pessoa inteligente, que pode fazer as próprias associações, que como espectadora pode escolher que faceta da história prefere, sem ser conduzida pela linearidade e pela lógica matemática. Me caso demais com esta situação!

Enfim, bom ver a maturidade da Companhia. Bom ver que se arriscam dentro de uma linguagem que vem sendo construída a muitas mãos. Bom que reverenciam seus mestres, Castilho Avelar, Vogel e Belém Machado, com carinho e cuidado. Bom poder ver o teatro que quer se comunicar com as pessoas que somos hoje, na nossa confusão, na nossa incerteza e na nossa necessidade de estar vivo.

segunda-feira, 24 de março de 2014

HORACIO. Uma reflexão sobre o humano



  
Direção Geral e Argumento:
Carlos Gradim
Dramaturgia:
Edmundo de Novaes Gomes
Elenco:
Geraldo Peninha, Leonardo Fernandes
Ator convidado:
Sávio Moli
Criação de Imagens: Clarissa Campolina
Designer de Luz: Telma Fernandes
Trilha sonora: Dr. Morris
Produção Musical: João Antunes
Voz da Canção: Regina Souza
Cenografia e Figurinos: Niura Bellavinha
Preparação Vocal: Rose Gonçalves
Preparação Corporal: Suely Machado
Assistente de Direção: Leandro Daniel Colombo
Assistente de Produção: José Luís Silveira
Cenotécnico: Joaquim Pereira
Direção de Cena e Operação de som: Tacito Cordeiro
Operação de Luz: Edimar Pinto
Costureira: Maria Socorro Teles
Fotografia: AC JR e Guto Muniz
Assessoria de Imprensa: Jozane Faleiro
Assessoria Jurídica: Drummond & Neumayr
Gestores Financeiros: Luiz Guimarães e Clac Cultural (Cris Lima)


É curioso observar a ficha técnica deste espetáculo... Faz pensar na enormidade de uma equipe necessária para alcançar um bom trabalho. Desde as escolhas de texto e de desenho de cena até o modo como se anuncia a chegada de um novo trabalho de teatro na sociedade, nas cidades, na vida de quem vive o teatro, tudo são  elementos de uma rede que compõe e dá ordem a um resultado respeitável e consistente. Este é o caso de Horácio.

“O percurso dramatúrgico de HORACIO surge de dois textos diferentes. O primeiro, a novela O HOMEM COMUM, de Philip Roth. O segundo, a prosa poética HORACIO, de João Gabriel Furbino, ainda inédita em livro. Em comum os dois textos possuem um desejo: falar da vida naquilo que ela pode ter de mais decisivo. Assim, HORACIO é uma alegoria na qual as metáforas se apresentam a partir daquilo que eu, que você, que cada um de nós pode (ou não!) viver.”
Edmundo Novaes.

O que tem a vida de decisivo, que o teatro pode mostrar, desvendar, revelar, repetir... Na conversa de um homem consigo mesmo, durante seu velório, diante da morte e das pessoas que são atraídas por ela, podemos encontrar uma vida estarrecedora e duvidosa. No espaço cênico que não exprime um lugar, talvez, exprima um não-lugar, tomamos contato com a terrível certeza que podemos ser esquecidos, abandonados, relegados ao passado e à memória frágil de acontecimentos que não foram, afinal tão marcantes assim.

O espaço cênico de HORACIO é um labirinto de luz e transparências. Suas paredes-biombos escondem e revelam humanos, inumanos e pós-humanos. Homens que foram vivendo uma vida na medida em que ela a eles foi se dando. Espíritos ainda insipientes das coisas da vida, que se foram forjando nas memórias, pois os acontecimentos só adquiriram significado muito tempo depois de acontecidos. E homens cheios de bengalas e muletas, tecnológicas como uma caneta e um relógio, que marca uma hora inacreditável de ir-se embora, ou fantasmagóricas, que nunca são visíveis, mas muito presentes.

São paredes transparentes que apontam a consciência e a dúvida que somos e vivemos, diariamente, como um cotidiano anti-poético. Um cotidiano cruel e avassalador que nos compromete com nossas próprias mentiras e maldades. Que nos amolece com amores inconfessáveis que nem vivemos plenamente, por incompetência pura. A luz que as atravessa faz brilhar as presenças, faz com que as sombras surjam e desapareçam, como em nosso pensamento. A sutileza da entrada das cores e dos tons pastéis, ilumina uma fantasia teatral de um pós-humano desgastado, cansado e vivo. Ou quase vivo. O quase vivo é que nos angustia, pois a presença não consegue mais realizar nada, não existe de fato, é só memória do fazer.

Os figurinos não aumentam nem diferenciam aquela alma. São realistas, cotidianos e pouco informam a fantasmagoria. No desejo de enxergar aquelas almas, preferiria ter visto a irrealidade mais presente, roupas mais contundentes, que não se restringissem a vestir os atores. Claro, que não sendo eu a fazer o espetáculo, posso apenas dizer de uma sensação de fruidora: não fizeram diferença. Os objetos, cumprem papel de praticáveis, não interferem poeticamente, e só contribuem para uma movimentação ou outra.

As atuações é que fazem explodir o espaço e mudar o tempo. Os atores se colocam, são intensos e verticais. Como diz Peninha no programa: “o texto é um desafio por fugir dos padrões comuns e a direção nos incentiva o tempo todo a descobrir o prazer que existe no risco. Surpreendente e estimulante! Dois adjetivos que todo ator agradece ao encontrar no trabalho”. Os atores transparecem gostar do que fazem, exploram suas frases e palavras, meio soltas, meio arquetípicas, meio normais, meio engraçadas. Ocupam os espaços vazios do tablado aparente com um corpo vivo e confuso, como uma alma penada e desconectada. Livre para ser um fantasma.

HORACIO de fato é um trabalho cheio de qualidades teatrais. Palavras intensas, jogos atraentes, luzes e cores que constroem presenças, que ressignificam a vida, que trazem um masculino pós-moderno: confuso, adocicado, delicado, crível. A realização plástica de HORACIO é contundente na atuação, no espaço e na luz. A teatralidade flui. Bom ver teatro bom.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ELLES: mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou




O século XX foi profícuo em experimentalismos e legou ao século seguinte uma densidade tecnológica desconhecida até então. A discussão da arte moderna trouxe uma série  de reflexões importantes que reorganizaram tanto as relações entre artistas, quanto a relação da arte com a sociedade. A expressão não racionalizada de pensamentos, como no Expressionismo; a abstração como projeto estético, como no Abstracionismo; o cinema; a moda; a imagem, o visual e a construção do olhar, a intencionalidade da visão. Diante de todas estes acontecimentos a arte se colocou como um percurso político, ideológico e econômico, para além de sua atividade estimuladora da sensibilidade. E as mulheres cumpriram papel importante nessa reordenação de relações.

Por um ado, as mulheres contribuíram com o pensamento ampliando as possibilidades de percepção da imagem, sob tonalidades de um ser humano que se modifica a cada quinze dias, um ser que obteve somente nesta época a respeitabilidade pela noção biológica e psicológica de igualdade. As mulheres do século XX foram responsáveis por conquistas fundamentais para a percepção política da arte, por sua contribuição ao debate sobre as diferenças e as igualdades entre os gêneros. O Feminismo foi um movimento guerrilheiro que afetou profundamente toda a estrutura social, e colocou novos parâmetros artísticos, ideológicos e humanos em voga.

Jacques Aumont (A Imagem, Papirus, 1993) chama atenção para os estudos sobre a diferença sexual na produção e fruição de imagens, e sua reflexão parece se materializar na exposição ELLES, de maneira poética e estimulante. Para Aumont, os estudos feministas insistiram na “assimetria entre personagens masculinos dotados do poder de olhar e personagens femininas feitas para serem olhadas”, gerando um fetiche da mulher como “objeto para ser olhado” e o do homem como “portador do poder de olhar”. Esta oposição alimentou a discussão e o reposicionamento de mulheres de várias gerações, e deu ensejo a uma produção complexa de manifestações artísticas de cunho desafiador na passagem entre o século XX e o século XXI. A exposição ELLES, dá conta de um mundo inteiro que esteve amalgamado com a produção artística mundial, mas que se individualizou como revisão de costumes, de nomenclatura e de percepções sobre a mulher.

Seria insano, penso, tentar dialogar com a exposição como um todo aqui neste espaço, por sua grandiosidade e intensidade. Quem não viu vá ver. Mas posso trazer à tona um naco de luminosidade dentre os focos que se misturam em ELLES, repetindo uma frase de Louise Bourgeois. Esta artista nasceu francesa e radicou-se nos EUA, conheceu a fama tardiamente e morreu em 2010, aos 98 anos de idade. Seu trabalho se concentrou em esculturas, no mais amplo significado desta arte. Materiais como madeira, aço, pedra, borracha, papel e tecido foram seus parceiros. Também produziu desenhos e gravuras.

Em ELLES, encontramos uma composição de tinta e linha sobre papel, de extrema delicadeza e feminilidade, sem título. Branco, vermelho e azul desenham uma forma abstrata que remete à ocupação do espaço pela intensidade nervosa. A linha costura o papel em espiral ao lado da tinta, que escorre vermelha no centro da lâmina. Louise escreve sobre as formas espirais desta composição:

“Começar pelo lado externo é o medo de perder o controle; as voltas são um aperto, um recuo, uma compactação até o ponto de desaparecimento. Começar pelo centro é afirmação, o movimento para fora é representação de dar, de abandonar o controle; de confiança, de energia positiva, a própria vida.” (Destruição do Pai, Reconstrução do Pai, Cosac & Naif, 2000)

Assim como os espirais delicados de Bourgeois, as mulheres promoveram na arte moderna e na passagem para a arte contemporânea um movimento de duas vias: de dentro para fora, revigoraram o pensamento social com valores femininos de afeto e intensidade; de fora para dentro, empurraram os limites ideológicos da arte, forçando a revisão de suas estruturas heteronormativas, brancas, europeias e ocidentais. Ainda não foi o suficiente para a transformação real, mas é consistente para que esta não possa mais ser evitada.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Dama do Mar



Direção, cenário e conceito de luz: Robert Wilson
Co-direção: Giuseppe Frigeni
Texto: Susan Sontag baseado na peça de Henrik Ibsen
Baseado na peça de Henrik Ibsen – Tradução: Fábio Fonseca de Melo
Revisão e adaptação: Leila Guenther
Música: Michael Galasso
Figurinos: Giorgio Aramani
Desenho de luz: A.J. Weissbard
Assistência de luz: Fiammetta Baldiserri
Desenho de som: Peter Cerone
Visagismo: Luc Verschueren
Assistência de direção: André Guerreiro Lopes

Elenco
Lígia Cortez
Ellida Wangel
Ondina Clais Castilho
Hélio Cícero
Luiz Damasceno
Felipe Sacon
Bete Coelho – participação especial – Alternância de papéis

Projeto
Change Peforming Arts, Milão, Itália
Diretores artísticos: Franco Laera e Elisabetta di Mambro
Coordenadora de Produção: Virginia Forlani

Realização: SESC – Serviço Social do Comércio / SP
Presidente Conselho Regional: Abram Szajman
Diretor do Departamento Regional: Danilo dos Santos Miranda

(Informações do Programa Impresso da Apresentação no SESC- Pinheiros)


“Desejo e coragem de lutar pela inovação” (Giorgio Armani)

Ver teatro não tem sido tarefa fácil na nossa atualidade. Um sem número de experiências arrogantes tem se misturado aos projetos de estudo e de mergulho nas nuances de uma forma tão múltipla e encantadora. Quando se presencia uma busca intensa e, por assim, dizer, invasiva de nossa habilidade de nos deixar afetar, como “A Dama do do Mar” de Bob Wilson, tudo concorre para um momento de renovação, de vivificação, de doce angústia pelo espetáculo da vida.

Pressupondo que no teatro não há “nenhuma separação entre as várias expressões artísticas”, que “o que é visual e o que é sonoro são aspectos inseparáveis”, Bob Wilson compartilha com atores, que se permitem criar novos níveis de realidade, um mundo artificial, capaz de nos apresentar verdades profundas. Uma mulher-foca, que pode ser apenas uma mulher enfadada, que pode ser uma mulher reprimida, que pode ser uma mulher louca, se mostra nas suas entranhas para nós, os olhares estupefatos. Um tempo-ritmo que não se rende à velocidade dos cotidianos pós-modernos, que insiste em fazer revisar todos os hábitos de envolvimento e de leitura de uma obra teatral. Um espaço lúdico e surreal, deliciosamente simples e limpo, mas que transpõe a vida para múltiplos patamares de percepção. Ah... quanto é inspirador poder abandonar a verdade e criar uma realidade. E quanto é nutritivo para a imaginação e para a inteligência retornar desta aventura para um mundo fragmentado e confuso como o nosso atual.

A plasticidade da cena pode nos inspirar a recompor a plasticidade da vida, porque nos oferece as possibilidades de criação de sujeitos, a partir de nós mesmos, a partir de nos espelharmos no diferente. Um teatro poema que não está a serviço de uma realidade, porque consegue estabelecer novas realidades, que não se submete à vaidade de atores ou de grupos de atores, porque está voltado para uma percepção compartilhada da violência da nossa imaginação.  Um teatro para desorientar nossas capacidades intelectuais e irritar nossas concepções pequeno-burguesas de sucesso, de crítica, de qualidade.

Um mosaico belo e delicado de sons, cores e movimentos delineados pela busca da precisão. Seres pós-humanos dispostos a se relacionar com humanos que fingem não estar presentes, que acatam os longos silêncios, e que, talvez,  não estejam confortáveis nas suas cadeiras por tanto tempo, olhando para um nada, uma constante dúvida sobre a coerência e sobre o delírio.

Me veio uma necessidade de voltar a este espetáculo, verdadeiramente um espetáculo, por ter medo intelectual de me contaminar pela ingenuidade capitalista do teatro feito para si mesmo. Do teatro feito para forçar a capitalização e não a experiência. Por precisar me lembrar a mim mesma que, antes de tudo, teatro tem um papel social muito importante, mais importante que a continuidade de um grupo, ou a vivencia individual de um processo de trabalho... Teatro é uma expressão de alteridade. Sua perspectiva é, para mim e também para outros embora não para todos, um contexto de aprendizado sobre o outro. Uma relação para a redescoberta da vida.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Apichatpong Weerasethakul

 

Exibição de Videoarte
FLUXUS 2013

Apichatpong Weerasethakul, apelidado por si mesmo Joe, é um realizador do cinema independente tailandês. Licenciado em Arquitetura pela Universidade de Khon Kaen (Tailândia) e Mestre em Belas Artes – Cinema, pelo Art Institute (Chicago - EUA). Nascido em 1970 e filho de médicos, tornou-se uma figura central no cinema contemporâneo desde 1994, quando iniciou seu trabalho como videoartista e criador de instalações, estas já expostas em museus e centros de arte do mundo inteiro.

A exposição “Apichatpong Weerasethakul” é, na verdade uma coletânea de oito filmes de Joe: sete curtas e um longa. Os sete curtas foram realizados entre 2006 e 2012, e o longa, “Hotel Mekong”, é de 2012. Foi realizada em Belo Horizonte/MG na Galeria Oi Futuro, com curadoria de Francesca Azzi (brasileira, diretora da Zeta Filmes). A mostra do trabalho de Weerasethakul faz parte do projeto “Fluxus”, coordenado pela curadora.

O “Fluxus” - Festival Internacional de Cinema na Internet, surgiu em 2000, como “Brasil Digital”, antes de existir o You Tube e o Google. O projeto buscou criar novos espaços de exibição para o filme curto brasileiro, e em 2003 se tornou internacional.

Compartilhar as imagens de Joe W. é como adentrar um mundo reinventado. O cineasta complementa a realidade documental, na qual baseia seus filmes, com uma visão onírica e abstrativa de seus elementos, objetos e participantes. Com uma narrativa não-linear, Joe promove intensas sensações e associações mentais e afetivas, que podem desencadear reflexões políticas, pessoais e humanistas de grande alcance. Sua força parece estar num olhar extremamente humano sobre os homens e mulheres que vivem erraticamente sobre este planeta tresloucado. O inumano de cada uma das personas que seus filmes enfocam, e dos espaços que são tratados como ambientes vivos e significativos, transpõe o mistério da vida para a tela bidimensional, codifica a passagem de estados de espírito em imagens  inusitadas e líricas.

Num tempo de excesso de imagens, de filmes em profusão, de sentimentalidades amassadas pelo consumismo, os filmes de Joe W. podem despertar um luminosidade interior. Podem injetar fantasia e amor em nossas cabeças cansadas e repletas de pensamentos e decisões. O cinema de Joe W. poderia, penso, ser dito supra-realista, porque não economiza delírios possíveis para nosso mundo atual, e, ao mesmo tempo, imanta a realidade de vários níveis de percepção. É doce e bruto, é feminino e agressivo, é grandioso e simples.

Joe Weerasethakul é um artista de seu tempo, disposto a ver e fazer a poesia do cotidiano, e com competência de mestre para instaurar um clima criativo naqueles que se dispuserem a mergulhar no tempo, ao invés de serem dominados por ele.