quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ELLES: mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou




O século XX foi profícuo em experimentalismos e legou ao século seguinte uma densidade tecnológica desconhecida até então. A discussão da arte moderna trouxe uma série  de reflexões importantes que reorganizaram tanto as relações entre artistas, quanto a relação da arte com a sociedade. A expressão não racionalizada de pensamentos, como no Expressionismo; a abstração como projeto estético, como no Abstracionismo; o cinema; a moda; a imagem, o visual e a construção do olhar, a intencionalidade da visão. Diante de todas estes acontecimentos a arte se colocou como um percurso político, ideológico e econômico, para além de sua atividade estimuladora da sensibilidade. E as mulheres cumpriram papel importante nessa reordenação de relações.

Por um ado, as mulheres contribuíram com o pensamento ampliando as possibilidades de percepção da imagem, sob tonalidades de um ser humano que se modifica a cada quinze dias, um ser que obteve somente nesta época a respeitabilidade pela noção biológica e psicológica de igualdade. As mulheres do século XX foram responsáveis por conquistas fundamentais para a percepção política da arte, por sua contribuição ao debate sobre as diferenças e as igualdades entre os gêneros. O Feminismo foi um movimento guerrilheiro que afetou profundamente toda a estrutura social, e colocou novos parâmetros artísticos, ideológicos e humanos em voga.

Jacques Aumont (A Imagem, Papirus, 1993) chama atenção para os estudos sobre a diferença sexual na produção e fruição de imagens, e sua reflexão parece se materializar na exposição ELLES, de maneira poética e estimulante. Para Aumont, os estudos feministas insistiram na “assimetria entre personagens masculinos dotados do poder de olhar e personagens femininas feitas para serem olhadas”, gerando um fetiche da mulher como “objeto para ser olhado” e o do homem como “portador do poder de olhar”. Esta oposição alimentou a discussão e o reposicionamento de mulheres de várias gerações, e deu ensejo a uma produção complexa de manifestações artísticas de cunho desafiador na passagem entre o século XX e o século XXI. A exposição ELLES, dá conta de um mundo inteiro que esteve amalgamado com a produção artística mundial, mas que se individualizou como revisão de costumes, de nomenclatura e de percepções sobre a mulher.

Seria insano, penso, tentar dialogar com a exposição como um todo aqui neste espaço, por sua grandiosidade e intensidade. Quem não viu vá ver. Mas posso trazer à tona um naco de luminosidade dentre os focos que se misturam em ELLES, repetindo uma frase de Louise Bourgeois. Esta artista nasceu francesa e radicou-se nos EUA, conheceu a fama tardiamente e morreu em 2010, aos 98 anos de idade. Seu trabalho se concentrou em esculturas, no mais amplo significado desta arte. Materiais como madeira, aço, pedra, borracha, papel e tecido foram seus parceiros. Também produziu desenhos e gravuras.

Em ELLES, encontramos uma composição de tinta e linha sobre papel, de extrema delicadeza e feminilidade, sem título. Branco, vermelho e azul desenham uma forma abstrata que remete à ocupação do espaço pela intensidade nervosa. A linha costura o papel em espiral ao lado da tinta, que escorre vermelha no centro da lâmina. Louise escreve sobre as formas espirais desta composição:

“Começar pelo lado externo é o medo de perder o controle; as voltas são um aperto, um recuo, uma compactação até o ponto de desaparecimento. Começar pelo centro é afirmação, o movimento para fora é representação de dar, de abandonar o controle; de confiança, de energia positiva, a própria vida.” (Destruição do Pai, Reconstrução do Pai, Cosac & Naif, 2000)

Assim como os espirais delicados de Bourgeois, as mulheres promoveram na arte moderna e na passagem para a arte contemporânea um movimento de duas vias: de dentro para fora, revigoraram o pensamento social com valores femininos de afeto e intensidade; de fora para dentro, empurraram os limites ideológicos da arte, forçando a revisão de suas estruturas heteronormativas, brancas, europeias e ocidentais. Ainda não foi o suficiente para a transformação real, mas é consistente para que esta não possa mais ser evitada.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Dama do Mar



Direção, cenário e conceito de luz: Robert Wilson
Co-direção: Giuseppe Frigeni
Texto: Susan Sontag baseado na peça de Henrik Ibsen
Baseado na peça de Henrik Ibsen – Tradução: Fábio Fonseca de Melo
Revisão e adaptação: Leila Guenther
Música: Michael Galasso
Figurinos: Giorgio Aramani
Desenho de luz: A.J. Weissbard
Assistência de luz: Fiammetta Baldiserri
Desenho de som: Peter Cerone
Visagismo: Luc Verschueren
Assistência de direção: André Guerreiro Lopes

Elenco
Lígia Cortez
Ellida Wangel
Ondina Clais Castilho
Hélio Cícero
Luiz Damasceno
Felipe Sacon
Bete Coelho – participação especial – Alternância de papéis

Projeto
Change Peforming Arts, Milão, Itália
Diretores artísticos: Franco Laera e Elisabetta di Mambro
Coordenadora de Produção: Virginia Forlani

Realização: SESC – Serviço Social do Comércio / SP
Presidente Conselho Regional: Abram Szajman
Diretor do Departamento Regional: Danilo dos Santos Miranda

(Informações do Programa Impresso da Apresentação no SESC- Pinheiros)


“Desejo e coragem de lutar pela inovação” (Giorgio Armani)

Ver teatro não tem sido tarefa fácil na nossa atualidade. Um sem número de experiências arrogantes tem se misturado aos projetos de estudo e de mergulho nas nuances de uma forma tão múltipla e encantadora. Quando se presencia uma busca intensa e, por assim, dizer, invasiva de nossa habilidade de nos deixar afetar, como “A Dama do do Mar” de Bob Wilson, tudo concorre para um momento de renovação, de vivificação, de doce angústia pelo espetáculo da vida.

Pressupondo que no teatro não há “nenhuma separação entre as várias expressões artísticas”, que “o que é visual e o que é sonoro são aspectos inseparáveis”, Bob Wilson compartilha com atores, que se permitem criar novos níveis de realidade, um mundo artificial, capaz de nos apresentar verdades profundas. Uma mulher-foca, que pode ser apenas uma mulher enfadada, que pode ser uma mulher reprimida, que pode ser uma mulher louca, se mostra nas suas entranhas para nós, os olhares estupefatos. Um tempo-ritmo que não se rende à velocidade dos cotidianos pós-modernos, que insiste em fazer revisar todos os hábitos de envolvimento e de leitura de uma obra teatral. Um espaço lúdico e surreal, deliciosamente simples e limpo, mas que transpõe a vida para múltiplos patamares de percepção. Ah... quanto é inspirador poder abandonar a verdade e criar uma realidade. E quanto é nutritivo para a imaginação e para a inteligência retornar desta aventura para um mundo fragmentado e confuso como o nosso atual.

A plasticidade da cena pode nos inspirar a recompor a plasticidade da vida, porque nos oferece as possibilidades de criação de sujeitos, a partir de nós mesmos, a partir de nos espelharmos no diferente. Um teatro poema que não está a serviço de uma realidade, porque consegue estabelecer novas realidades, que não se submete à vaidade de atores ou de grupos de atores, porque está voltado para uma percepção compartilhada da violência da nossa imaginação.  Um teatro para desorientar nossas capacidades intelectuais e irritar nossas concepções pequeno-burguesas de sucesso, de crítica, de qualidade.

Um mosaico belo e delicado de sons, cores e movimentos delineados pela busca da precisão. Seres pós-humanos dispostos a se relacionar com humanos que fingem não estar presentes, que acatam os longos silêncios, e que, talvez,  não estejam confortáveis nas suas cadeiras por tanto tempo, olhando para um nada, uma constante dúvida sobre a coerência e sobre o delírio.

Me veio uma necessidade de voltar a este espetáculo, verdadeiramente um espetáculo, por ter medo intelectual de me contaminar pela ingenuidade capitalista do teatro feito para si mesmo. Do teatro feito para forçar a capitalização e não a experiência. Por precisar me lembrar a mim mesma que, antes de tudo, teatro tem um papel social muito importante, mais importante que a continuidade de um grupo, ou a vivencia individual de um processo de trabalho... Teatro é uma expressão de alteridade. Sua perspectiva é, para mim e também para outros embora não para todos, um contexto de aprendizado sobre o outro. Uma relação para a redescoberta da vida.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Apichatpong Weerasethakul

 

Exibição de Videoarte
FLUXUS 2013

Apichatpong Weerasethakul, apelidado por si mesmo Joe, é um realizador do cinema independente tailandês. Licenciado em Arquitetura pela Universidade de Khon Kaen (Tailândia) e Mestre em Belas Artes – Cinema, pelo Art Institute (Chicago - EUA). Nascido em 1970 e filho de médicos, tornou-se uma figura central no cinema contemporâneo desde 1994, quando iniciou seu trabalho como videoartista e criador de instalações, estas já expostas em museus e centros de arte do mundo inteiro.

A exposição “Apichatpong Weerasethakul” é, na verdade uma coletânea de oito filmes de Joe: sete curtas e um longa. Os sete curtas foram realizados entre 2006 e 2012, e o longa, “Hotel Mekong”, é de 2012. Foi realizada em Belo Horizonte/MG na Galeria Oi Futuro, com curadoria de Francesca Azzi (brasileira, diretora da Zeta Filmes). A mostra do trabalho de Weerasethakul faz parte do projeto “Fluxus”, coordenado pela curadora.

O “Fluxus” - Festival Internacional de Cinema na Internet, surgiu em 2000, como “Brasil Digital”, antes de existir o You Tube e o Google. O projeto buscou criar novos espaços de exibição para o filme curto brasileiro, e em 2003 se tornou internacional.

Compartilhar as imagens de Joe W. é como adentrar um mundo reinventado. O cineasta complementa a realidade documental, na qual baseia seus filmes, com uma visão onírica e abstrativa de seus elementos, objetos e participantes. Com uma narrativa não-linear, Joe promove intensas sensações e associações mentais e afetivas, que podem desencadear reflexões políticas, pessoais e humanistas de grande alcance. Sua força parece estar num olhar extremamente humano sobre os homens e mulheres que vivem erraticamente sobre este planeta tresloucado. O inumano de cada uma das personas que seus filmes enfocam, e dos espaços que são tratados como ambientes vivos e significativos, transpõe o mistério da vida para a tela bidimensional, codifica a passagem de estados de espírito em imagens  inusitadas e líricas.

Num tempo de excesso de imagens, de filmes em profusão, de sentimentalidades amassadas pelo consumismo, os filmes de Joe W. podem despertar um luminosidade interior. Podem injetar fantasia e amor em nossas cabeças cansadas e repletas de pensamentos e decisões. O cinema de Joe W. poderia, penso, ser dito supra-realista, porque não economiza delírios possíveis para nosso mundo atual, e, ao mesmo tempo, imanta a realidade de vários níveis de percepção. É doce e bruto, é feminino e agressivo, é grandioso e simples.

Joe Weerasethakul é um artista de seu tempo, disposto a ver e fazer a poesia do cotidiano, e com competência de mestre para instaurar um clima criativo naqueles que se dispuserem a mergulhar no tempo, ao invés de serem dominados por ele.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Vazio é o que não falta, Miranda




Direção e dramaturgia: Diogo Liberano
Assistência de Direção: Thaís Barros
Elenco: Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello
Direção Musical: Philippe Baptiste
Cenário: Rafael Medeiros
Figurinos e Caracterização: Adassa Martins e Natássia Vello
Iluminação: Diogo Liberano e Flávia Naves
Preparação Vocal: Verônica Machado
Direção de Produção: Caroline Helena e Diogo Liberano
Registro Audiovisual e fotográfico: Carolina Calcavecchia e Thaís Grechi
Correalização: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


Quatro atrizes e um diretor tentam encenar Esperando Godot de Samuel Beckett, sem sucesso”.

Como é a teatralidade na contemporaneidade? Se pensarmos no conceito de teatralidade podemos nos questionar em conjunto com Patrice Pavis (SP: Perspectiva, 1999), quando nos diz que:

            “é preciso busca-la no nível dos temas e conteúdos descritos no texto (espaços exteriores,      visualizações das personagens);
            é preciso, ao contrário, buscar a teatralidade na forma de expressão, na maneira pela qual o texto fala do mundo exterior e do qual mostra (iconiza) o que ele evoca pelo texto e pela cena?”

Podemos pensar que convivemos numa época saturada, seja de estímulos seja de informações, que amplifica o vazio. Ou, noutras palavras, numa época plena de intensidades mentais e afetivas, que se organiza no caos. Numa época em que as pessoas fazem autodescrições mais que análises, reivindicam a autoria de suas histórias no mundo, buscam demonstrar  sua ideologia na sua aparência e, guardadas as devidas proporções desta possibilidade, vivem absolutamente solitários em seus mundos artificiais e eletrônicos.

Numa tal época, tanto os temas e conteúdos expressos nos textos escritos, quanto os textos corporais, nos ícones que eles evocam e na cena como exprimível do mundo, estão as teatralidades. Estão as possibilidades de manifestação do ser no mundo, estão os vazios que proporcionam as trocas estéticas e a construção de sentidos.

Em “Vazio é o que não falta, Miranda”, passamos minutos em presença de seres super-humanos, que se expõe numa tentativa de construir atmosferas. Mais que contar uma história, que seria plena de vazios por sua temática da solidão e do indivíduo em sua elaboração de razões para ser e estar, “Vazio” nos coloca em pleno confronto com a “aventura da conservação do si mesmo” (Sloterdijk, 2001). Somos impactados por circunstâncias de interpelação direta, por desestruturações de expectativas comuns ao teatro dramático. Vivemos um dos processos do pós-dramático: “ trata-se aqui de um teatro especialmente arriscado, porque rompe com muitas convenções. Os textos não correspondem às expectativas com as quais as pessoas costumam encarar textos dramáticos. Muitas vezes é difícil até mesmo descobrir um sentido, um significado coerente da representação. As imagens não são ilustrações de uma fábula. (...). Este trabalho teatral é essencialmente experimental, persistindo na busca de novas combinações ou junções de modos de trabalho” (Lehman, Cosac Y Naif, 2007).

As atrizes se doam para uma composição em processo, desenvolvendo mais um projeto que um roteiro propriamente dito. Ao que parece este projeto tem um começo, algumas chaves de mudança de atmosfera e um fim. Mas tudo pode ser rearranjado, segundo indicações de um diretor-personagem, que se imiscui todo o tempo na presentação das imagens e ideias. Cinco personas ficcionais se debatem contra uma plateia indecisa... o que esperar de toda aquela mistura de atitudes, discussões e ações cênicas? Pequenos momentos de percepção lúcida de que somos fragmentos e fragmentados; raros momentos de prazer intenso por não sermos aqueles seres humanos desumanizados. Mas, neste caso para mim mesma, também intensos momentos de percepção criativa de como fazer a cena ao vivo para as pessoas que somos hoje, com várias ilusões, truques e mentiras, como o mais teatral dos teatros!

Divertido, controverso, poético, intrigante, provocador... estes adjetivos me ocorrem para nomear a experiência de compartilhar o “Vazio”, que de fato “não falta, Miranda”.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Get Out!



Um solo de Assis Benevenuto.

Texto, Direção e Atuação: Assis Benevenuto
Assistência de Direção: Marcos Coletta
Criação de Figurino: Mariana Blanco
Criação de Luz: Marina Arthuzzi
Criação de Cenário: Daniel Herthel
Trilha Sonora: Assis Benevenuto
Vídeo: Laboratório Filmes – Davi Fuzzari e Marco Gonçalves
Design Gráfico e Assessoria de Imprensa: Marcos Coletta
Produção e Realização: Quatroloscinco – Teatro do Comum.


“Eu nunca estive no voo 402 de 1996, não estive no LT 933, no AF 447, não era eu no ASA 77, nem no Flying Top American... Aquele avião que agora corta o céu, não, não sou eu, e se você está aqui é porque seria impossível estar em qualquer outro lugar. Está tudo dentro da cabeça: Get Out! Get Out! Não acredite em nada! Anda! Anda...”


Em Get Out!  se pode conviver com uma teatralidade pós-moderna. Digo isso pensando em duas circunstâncias, principalmente.  A primeira é o conceito de teatralidade, a partir das ideias de Roland Barthes[i], quando diz que trata-se de uma “espessura de signos e de sensações que se edifica em cena a partir do argumento escrito, é aquela espécie de percepção ecumênica dos artifícios sensuais, gestos, tons, distâncias, substâncias, luzes, que submerge o texto sob a plenitude de sua linguagem exterior”.

Ao nos depararmos com a busca de um ator, que assume nossa presença e nos conta da intensidade dos pensamentos e imagens que transbordam de sua cabeça, vamos ao encontro do mundo, da convivência, das suas dificuldades e incoerências, somos sugados para um contexto fragmentado. Somos envoltos por uma aura de fantasia, mistério e confissão que nos retira do lugar cotidiano e da sala de apresentação. Vivenciamos uma espessura de signos e sensações que se desdobram, permitindo que desenvolvamos nossa própria viagem naquele voo do qual somos passageiros improváveis. Não somos nós, é o mundo.

Ao mesmo tempo, somos tragados por uma volúpia diante de palavras, imagens e sonoridades desconectadas entre si, capazes de dar a perceber a velocidade do pensamento. A velocidade da descoberta, a inconstância do fluxo de ideias que nos atravessa intermitentemente, dentro das nossas cabeças. Como a nos chamar a observar o pensamento ao invés de pensar, Assis B. nos conclama a viajar... quase a delirar com tantas possibilidades de sonho, de projetos, de desejos, de mentiras, de provocações, que fazemos a nós mesmos, durante o estado de vigília.

E se nos colocamos em seu lugar, naquela viagem que não saiu do lugar, naquele voo que não decolou, mas que rompeu a barreira do tempo e do espaço, fazemos uma longa peregrinação à alma de um homem jovem e cheio de angústias. Uma peregrinação ao coração assustado, feroz e exuberante de um homem em pleno voo para fora do si mesmo. E, então, nos deparamos com a perspectiva da pós-modernidade.

Enquanto busca a teatralidade de sua fala comum, de seu corpo presente, de suas ações simples, Assis B. dispõe lado a lado blocos de referencias, sem deixar evidente suas relações, ou aquilo que os uniu naquele fio narrativo. Não se ocupa de explicar suas escolhas, ao contrário, se preocupa em demonstrar que o processo é um fluxo, e alcança eliminar a lógica formal, em nome de uma lógica aformal. O teatro se realiza como a presentação de várias intensidades autônomas, que não estão em função de mensagens, que não são explícitas e que podem ser míticas, se assim o quiser seu espectador.

Na segunda circunstância a que nos leva Get Out!, a significação é a resultante que o próprio espectador faz daquilo que para ele configurou-se em sentido. Saudável brincadeira com a vida e a percepção dela, que a pós-modernidade enseja... Se cada um de nós se levasse menos a sério, talvez pudéssemos alcançar viajar naquele voo, no qual Assis B. não esteve e nem nenhum de nós. E voltaríamos a delirar com nossos próprios desejos. Nos tornaríamos capazes de viver o pensamento, ao invés de enjaula-lo na coerência. E para isso serve o teatro: para nos mostrar que podemos ser mais livres, menos rígidos e extremamente poéticos, se vemos toda nossa confusão interior com olhos estéticos.




[i] PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Amassa!



Cia Contém Glúten / Brasília-DF
Criação Coletiva
Direção: Júlia Gunesch
Atores bailarinos: Paulo Victor Gandra, Haila Beatriz e Rebeca Castelo Branco
Músicos: Lucas Muniz e Isabella Pina
Iluminação: Ana Luiza Quintas e Marcelo Augusto
Produção: Isabella Pina;

“O espetáculo se dá em uma padaria e conta o caso de amor entre três personagens: duas mulheres que lutam pelos suspiros e amassos de um cobiçado padeiro. A paixão e o jogo de interpretação bem-humorada são traduzidos fielmente pelo tango ao vivo, entoado por um acordeão e um cajón.”
(texto do release)


A possibilidade de experimentação é um dos maiores ganhos de um curso profissionalizante de teatro, como o que as universidades podem proporcionar. “Amassa” é fruto da possibilidade de buscar e de realizar processos criativos no ambiente formativo. Todas as visões que ele sugere, tanto do ser humano quanto do teatro, trazem em si o aspecto da experimentação e da descoberta.

 Inicialmente, o cenário é intenso! Cheio de farinha e de pães causa sensação de sujeira, de bagunça, de desperdício, mas também de vida, de criação, de dar-se ao outro. O trabalho de fabrico de pães é uma doação, mesmo na perspectiva do seu comércio, pois o pão é o alimento primeiro. Na sua simplicidade, a mistura de farinha, água e sal, atravessou pelo menos seis séculos e continua presente em mesas ricas e pobres. Seu significado holístico é de positividade, prosperidade e harmonia. A padaria onde os personagens se atiram numa dura disputa, mistura, ela mesma, as dores e as riquezas que o amor e o sexo podem oferecer à vida.

Em seguida, o tango. A mescla de paixão, sensualidade, agressividade, tristeza. A submissão da mulher à força do parceiro que a desloca pelo chão. Propício ao contexto em que se colocam as duas mulheres em cena, o tango é um texto em “Amassa!”. Poderia ter se tornado o texto, no sentido de que a dança e a escolha das melodias poderia ter acentuado a disputa, poderia ter substituído falas, poderia ser o próprio conflito. Mas esta é uma opinião minha. O grupo desenvolveu um processo de criação de passos a partir da coreografia tradicional do tango, juntando elementos de humor e de atuação dramática, o que colore e diverte. Mas também incita à irritação: a submissão na dança leva a pensar na submissão da  mulher à sociedade machista.

Este particular, do tratamento da submissão, é sumamente curioso. Sabe-se que nos submetemos a algo ou alguém se não conhecemos outras possibilidades ou se queremos. Que uma submissão pode ser rompida a qualquer momento, desde que optemos por isto. Mas que pode gerar prazer, ser conveniente, e, até mesmo, ser de mão dupla. Pois estas características surgem todas em “Amassa!”. O homem é totalmente dominado pelo processo de sedução continuada que cada mulher desenvolve, cada uma com suas armas. Não consegue se decidir e vive dividido entre as duas, entre as noites e os corpos que ambas lhe oferecem. As mulheres são dominadas pela disputa, a ponto de se submeterem a papéis inconcebíveis para a mulher pós-moderna. Lutam entre si, se descabelam, se ofendem, torturam-se na intimidade e na solidão. Mas não saem da disputa. Estão submetidas à necessidade de vencer. Muito mais que de amar ou praticar o sexo.

O final expressionista traz uma pergunta: as mulheres matam e comem o homem. Somos incapazes de conviver com aquilo que não podemos dominar?

Há quase uma ingenuidade na massa de “Amassa!”, provinda, talvez, dos 20 anos de seus criadores. Todas as ações improvisadas em seus ensaios parecem ter vindo para a cena, enchendo o palco de repetições. Mas as repetições não são conscientes, o que as torna vazias. Os tangos escolhidos são muito conhecidos, e se tornam música mais que texto, pois nos trazem memórias ao invés de nos fazer mergulhar na angústia daqueles seres humanos, presos em sua submissão ao medo da derrota. Quando a canção consegue se esvaziar de significados imediatos, como em cenas nas quais é acelerada ou excessivamente alongada, somos tomados na plateia por uma sensação intensa e dolorosa. Quais as dores íntimas daqueles seres humanos subjugados e infelizes. O patético das situações se engrandece e podemos suspirar sem medo... sim, no fundo somos algo tolos quando disputamos o interesse de alguém.

Em sua defesa, além da própria força de sua experimentação cênica, “Amassa!” mostra elementos importantes da performance arte, como atitudes e ações que transparecem estar ligadas às vidas individuais de seus criadores... Uma das atrizes tem seu cabelo crespo e grande transformado em vassoura, como, talvez, ela tenha ouvido centenas de vezes durante a infância e a adolescência. Contudo, continua lindo e intenso, assumido e feminino. Os longuíssimo braços e pernas da outra atriz são enfatizados pelo figurino, e por movimentos e ações que os tornam verdadeiros galhos de uma imensa e magra árvore-mulher. Sim, ela também deve ter ouvido várias vezes que se parecia com um “vara-pau”... Ou não. O fato é que estas características e a forma irônica como são usadas intensificam o poder de enervação que o espetáculo desenvolve. E, me parece, este mesmo é o objetivo de uma cena: tirar as pessoas de seu estado de conforto.

“Amassa!” transpira energia jovem, submete o pensamento a uma série de dúvidas e pode despertar a raiva. Mas, também, é grandioso no seu apelo ao corpo como espaço de comunicação com  espectador, é corajoso na sua busca de envolver teatro, dança e música em ações cênicas contundentes e, mais que tudo, para satisfação desta que lhes escreve, proporciona a chance de fazer teatro para o corpo de um espectador que está anestesiado pelo excesso de mediações das suas relações com o mundo. Por tudo isto, vale a pena ser visto.